Cobrar projeto por metro quadrado vale a pena? Por que o m² engana

Se alguém te pergunta quanto você cobra por um projeto e a primeira coisa que vem na cabeça é “uns tantos reais o metro quadrado”, este texto é pra você.
Cobrar projeto por metro quadrado é, de longe, o atalho mais comum que eu vejo entre arquitetos e engenheiros, inclusive entre gente com muitos anos de mercado. Parece prático, parece justo, o cliente entende na hora. O problema é que, na maioria das vezes, o m² engana. E engana para os dois lados: tem projeto em que a conta não fecha pra você e tem projeto em que a conta não fecha pra quem está pagando.
Neste artigo eu vou te mostrar por que isso acontece, com o exemplo que eu dei na minha aula de precificação na Escola BORAnaOBRA, e o que colocar no lugar do metro quadrado na hora de montar o seu preço.
Por que cobrar projeto por metro quadrado parece fazer sentido
Vamos ser justos com o metro quadrado. Ele é fácil de medir, o cliente já tem esse número na cabeça e dá pra montar uma proposta em cinco minutos. Quando você está começando e não tem parâmetro nenhum, multiplicar a área por um valor parece uma saída segura.
Só que o metro quadrado mede uma coisa só: o tamanho. E o tamanho, muitas vezes, não tem nada a ver com o nível de complexidade do trabalho que você vai desenvolver. Nós somos prestadores de serviço, e prestador de serviço trabalha com horas. O que o seu projeto consome é tempo aplicado ao conhecimento técnico que você construiu. Se o preço não acompanha esse tempo, alguém sai perdendo.
O exemplo que mostra por que o m² engana: kitnet x galpão

A kitnet japonesa: área pequena, detalhamento gigante
Pensa numa kitnet no estilo japonês. Aquele espaço confinado, pequeno, onde você precisa colocar muita coisa dentro. É cama que vira mesa, é quarto que vira sala, e assim por diante.
Cada centímetro ali precisa ser pensado. O nível de detalhamento de projeto é gigante e vai demandar muitas horas. Se você cobra por metro quadrado para fazer uma kitnet dessas, a chance é que o valor do m² precisaria ser muito alto para você conseguir se remunerar. Como ninguém cobra um m² absurdo, o que acontece na prática é o contrário: você cobra o m² “normal”, trabalha muito e a conta não fecha pra você.
O galpão industrial: área grande, projeto simples
Agora vamos para o outro extremo. Em várias cidades do Brasil existem as áreas industriais, onde são permitidos níveis de incomodidade maiores, como barulho, e onde se constroem galpões.
Um galpão desses costuma ter estrutura simples, um pé-direito mais alto e um pequeno bloco administrativo, aquele mínimo que a prefeitura muitas vezes exige para emitir o alvará de funcionamento das empresas que vão ocupar o espaço. São muitos metros quadrados, é uma obra e um projeto grandes. Mas o nível de complexidade, do ponto de vista de projeto, é bem baixo.
Se nesse caso você cobra por metro quadrado, com um valor fixo, a conta não fecha para quem está pagando. O cliente recebe uma proposta enorme para um trabalho que não exige tanto, e com razão vai achar caro.
A conclusão: o metro quadrado não mede o esforço
Repara que nos dois casos o problema é o mesmo: o preço foi calculado em cima de algo que não representa o trabalho. Num caso você sai perdendo, no outro o cliente sai perdendo, e em nenhum dos dois o preço é justo. O que a gente precisa é de parâmetros, de pesos e medidas que deixem o preço justo pra você e justo pro seu cliente.
Um exemplo com números: o valor do m² de projeto na prática
Pra ficar concreto, um exemplo hipotético, com números redondos e escolhidos só para ilustrar. Não são valores de mercado nem de nenhuma tabela.
Imagine um profissional que decidiu cobrar R$ 40 por metro quadrado de projeto, para qualquer tipo de obra. E imagine que, pela conta de custos e capacidade produtiva dele, a hora vale cerca de R$ 60 (é o mesmo valor do exemplo do guia de como cobrar projeto de arquitetura).
- Kitnet de 25 m²: 25 × R$ 40 = R$ 1.000. Se o projeto consumir 90 horas entre reuniões, estudo, detalhamento e revisões, o custo das horas é 90 × R$ 60 = R$ 5.400. Você recebe menos de um quinto do que o trabalho custou.
- Galpão de 1.000 m²: 1.000 × R$ 40 = R$ 40.000. Se o projeto consumir 120 horas, o custo das horas é 120 × R$ 60 = R$ 7.200. O cliente paga mais de cinco vezes o que o trabalho custou e, muito provavelmente, vai contratar outro profissional.
Os números de horas também são ilustrativos. Cada projeto, cada escritório e cada cliente têm a sua realidade. Mas a lógica não muda: o preço de projeto por m² descola completamente do tempo que você vai gastar. E ainda falta somar o lucro e o imposto, que entram depois das horas.
O que realmente define o preço de um projeto além do m²
Se a área não mede o esforço, o que mede? Na prática, tudo aquilo que aumenta ou diminui as horas que o projeto vai consumir. Alguns pontos que valem olhar com atenção quando você for estimar um trabalho:
Nível de detalhamento
É o caso da kitnet. Quanto mais soluções sob medida, encaixes, móveis que mudam de função e detalhes construtivos, mais pranchas e mais horas. Um projeto pequeno e cheio de detalhe pode dar muito mais trabalho que um grande e repetitivo.
Número de ambientes
Como orientação geral, cada ambiente traz as suas próprias decisões: layout, pontos elétricos e hidráulicos, iluminação, revestimentos. Dois imóveis com a mesma área podem ter quantidades bem diferentes de ambientes, e isso pesa nas horas.
Marcenaria e projetos sob medida
Também como orientação geral: marcenaria costuma exigir desenho detalhado de cada peça, compatibilização com as instalações e conferência de medidas. Se o projeto tem muita marcenaria, inclua essas horas na estimativa em vez de diluir num valor por m².
Aprovações na prefeitura e órgãos
Ir à prefeitura, cumprir exigência para aprovação do projeto, acompanhar o processo. Tudo isso consome horas e não aparece na área do imóvel. No galpão, por exemplo, o bloco administrativo existe justamente por causa da exigência para o alvará.
Revisões e retrabalho
Esse é o que mais pesa no bolso. Sempre que tem retrabalho, sempre que tem aquele cliente que pede mil revisões fora do combinado, é um prejuízo enorme pra você, porque as suas horas são limitadas. Deixe claro na proposta quantas revisões estão incluídas e coloque essas horas na conta.
Como trocar o metro quadrado pelas horas
A base do preço precisa ser as horas. O caminho, resumido, é este:
- Descubra o valor da sua hora, dividindo seus custos pelas horas que você realmente produz. O passo a passo está em como calcular o valor da hora técnica do arquiteto e do engenheiro, e a parte das horas reais em capacidade produtiva.
- Estime as horas de cada etapa: a reunião para fechar o contrato, o briefing, o levantamento, o estudo, as revisões, o executivo, a aprovação. Considere os pontos acima: detalhamento, ambientes, marcenaria, aprovação e revisões.
- Multiplique pelo valor da hora, some o lucro e, por último, o imposto.
Se você ainda não tem as horas de cada etapa registradas, faça uma estimativa inicial e passe a controlar. Depois do primeiro serviço, compare o estimado com o real e ajuste. É assim que você constrói os seus parâmetros.
E vale o mesmo cuidado com as tabelas de honorários, que também costumam partir da área ou do valor da obra. Falo sobre isso em tabela de honorários de arquitetura: por que ela não resolve o seu preço.
Perguntas frequentes
Quanto cobrar por metro quadrado de projeto arquitetônico?
Não existe um valor do m² de projeto arquitetônico que sirva para todo mundo, justamente porque a área não reflete a complexidade. O preço precisa sair das horas que o projeto vai consumir multiplicadas pelo valor da sua hora, com lucro e imposto somados depois.
Posso mostrar o preço por m² na proposta?
Pode, se o seu cliente estiver acostumado a comparar assim. Calcule o preço pelas horas e, se quiser, divida pela área só para comunicar. O m² pode ser uma forma de apresentar o número, mas não deve ser a base do cálculo.
Por que um projeto grande pode custar menos que um pequeno?
Porque o que você vende são horas. Um galpão com estrutura simples pode exigir menos tempo de projeto que uma kitnet cheia de soluções sob medida, mesmo tendo uma área muitas vezes maior.
Como estimar as horas de um projeto se eu nunca controlei?
Liste as etapas que você sempre faz (reuniões, briefing, levantamento, estudo, revisões, executivo, aprovação) e estime quanto tempo leva em média em cada uma. No primeiro serviço, anote as horas reais e ajuste a estimativa para o próximo.
Quer ver a aula completa?
Este conteúdo saiu da aula “Como cobrar pela primeira vez por projetos e obras”, que eu dei na Escola BORAnaOBRA, a nossa escola para arquitetos e engenheiros que querem viver bem das suas profissões.
Lá você assiste à aula completa e a muitas outras aulas práticas do Método BORAnaOBRA, sobre precificação, gestão, relacionamento com cliente e obra.